SALÁRIOS MAIS BAIXOS PARA FUMANTES.

É A GUERRA CONTRA O CIGARRO

Karin Faria

http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2001/01/02/eco752.html

            

Pesquisas mostram que empresas americanas identificam cigarro com pouca produtividade. No Brasil, 76,5% têm problemas em contratá-los. E pagam salário até 6% menor.

 

Fumantes são improdutivos, deselegantes e raramente conseguem o emprego quando há uma única vaga. Não bastasse isso tudo, no Brasil, eles ainda estão ganhando 6% menos que funcionários que desempenham a mesma função. O relatório não é um manual contra o tabagismo. Mas dados de pesquisas feitas com profissionais de recursos humanos no Brasil e Estados Unidos. E, certamente, uma boa motivação para largar o vício.

 

O Brasil intensificou a caça aos fumantes, a exemplo do que vem ocorrendo nos Estados Unidos. Recente pesquisa do site Valt.com, especializado em carreiras, mostra que 49,5% dos profissionais de recursos humanos (RH) caracterizam os fumantes como improdutivos. No Brasil, uma pesquisa feita pelo Grupo Catho, empresa de recolocação profissional, indica que 76,5% dos executivos têm objeção na hora de contratar quem fuma.

 

Segundo a consultora de RH do Catho, Regina Isabel Cadelca, o que se observa no mercado interno é que as empresas estão cada vez mais exigentes na procura por não-fumantes e os profissionais, por sua vez, largando o vício.

 

Para fazer a pesquisa, o Grupo entrevistou 7 mil executivos, de 31 empresas, em todo o País. "Apenas 21% fumam. Desses, 75% querem largar o vício e 98,8% acham deselegante fumar." Além disso, o estudo detectou que o salário dos fumantes é 6% menor que o de outros profissionais na mesma função.

 

A explicação? A primeira é a instituição dos fumódromos dentro das empresas, que obrigam o fumante ter de se ausentar do local trabalho mais vezes por dia. "Pelo estudo, observamos que, em média, as pessoas saem para fumar 14,7 vezes no dia." E mesmo os que tentam se livrar do vício em nome do emprego, acabam não tendo sucesso. "Eles ficam tão ansiosos que o desempenho profissional cai."

 

Outro motivo para a resistência das empresas aos fumantes é a rejeição dos que não fumam. "Todos estão menos tolerantes à fumaça do cigarro. Como o fumo entrou para a categoria dos politicamente incorretos, eles se sentem à vontade para manifestações antitabagistas."

 

Faça chuva ou faça sol Todas as consultorias de RH dizem que é crescente o número de corporações que preferem os não-fumantes. O diretor de projetos da Manager - Assessoria de RH, Nelson Viviani, lembra de outro motivo para as empresas discriminarem fumantes. Além dos problemas já mencionados, o cigarro faz mal à saúde. "E o raciocínio empresarial é simples: doentes faltam ao trabalho."

 

Para o diretor-geral da Simon Franco TMP Worldwide, Maurício Franco, é um caminho sem volta. As empresas restringem cada vez mais o espaço dos fumantes e eles já sentem vergonha de assumir o vício. "Em Nova York, por exemplo, os trabalhadores saem para fumar na rua, chova ou faça frio."

 

O presidente do Grupo Focu, João Canada, que atendeu mais de 300 companhias esse ano, confirma. "Cerca de 60% dos meus clientes dão preferência para não-fumantes e só cedem se o fumante for melhor qualificado."

 

Pausas no expediente Os primeiros a levantar a bandeira antitabagista foram os Estados Unidos. Lá, além dos 49,5% que avaliam o fumante como improdutivo, a pesquisa do site de carreiras Valt.com mostra que 30,4% acham que a influência do fumo sobre a produtividade varia de acordo com o funcionário e apenas 20,1% discordam sobre esse quesito.

 

O índice de rejeição entre não-fumantes também é alto. Metade respondeu que fumante incomoda. Para 35,6%, o problema maior é ter de respirar a fumaça.

 

Outros 32,9% reclamam que os fumantes têm cheiro de cigarro e 20,5% se queixam das pausas dos fumantes durante o expediente.