UM DIA SEM TABACO

Ademir Fernandes Gonçalves*

 

Em 1880, 58% do tabaco era consumido sob a forma de fumo de mascar. Charutos e cachimbos respondiam por 19% cada, enquanto 3% cheiravam rapé e míseros 1% ficavam com o consumo de cigarros. No início do século XX, este percentual dobrou, chegando aos 2%.

 

O que houve nestes pouco mais de cem anos, quando não mais se masca nem se cheira tabaco, quando cachimbo e charutos viraram excentricidade? O que houve para que o cigarro dominasse o mercado, a ponto de que somente no Brasil 36 milhões das pessoas fumem (24% da população) ?

 

A resposta dada por Mario César Carvalho em seu livro O Cigarro mistura industrialização, duas guerras mundiais, glamour hollywoodiano, impostura e maciça propaganda – voltada principalmente aos adolescentes.  A industrialização fez a sua parte, criando uma máquina capaz de enrolar 70 mil cigarros por mês e baratear seu preço pela metade, e a humanidade foi decisiva: em duas guerras mundiais, criou o mito do cigarro, como símbolo de prazer, consolo e espécie companhia para quem está longe de casa.

 

No pós-guerra, Hollywood pôs na mão de Humphrey Bogard, Rita Hayworth e outros ídolos da tela o falso brilho glamouroso e enfumaçado do cigarro. Antes que o mundo se desse conta, o hábito de fumar estava associado a competições esportivas, à cultura, ao sucesso, à gente bonita e à sensualidade. Entre nós, até ainda pouco, associávamos fumo ao jazz, motocross, balonismo, e, lamentavelmente, ainda o associamos aos domingos de F-1.

 

Vinte e seis doenças fatais do tabaco, sendo onze tipos de câncer e seis doenças cardiovasculares, foram por mais de cinqüenta anos escamoteadas e negadas pela indústria do fumo. Estudos científicos que ela própria realizara foram escondidos. Em nome do lucro e para viciar mais rapidamente, manipularam-se os níveis da nicotina de 2% para até 6%, além de outras práticas contrárias à saúde e à vida humanas.

 

 A Tobacco War, iniciada nos EUA na segunda metade do século passado, repercute em todo o mundo pelas crescentes restrições ao fumar em público, pela proibição de publicidade esportiva e voltada para jovens, pela não-manipulação dos componentes do tabaco, pela indenização de 246 bilhões de dólares que vem sendo paga pela indústria fumageira americana e, agora, pelo renovado impulso com o pacto global para controle do tabaco. Adotado pela 56a Assembléia da Organização Mundial da Saúde, trata-se de um projeto orientado para a redução da mortalidade e da morbidade associadas ao tabaco em todo o mundo.

 

Aqui, na terra do saudoso Dr. Mário Rigatto, no Estado em que o Judiciário proibiu o fumo em aeronaves, cabe à sociedade organizar-se para defender o futuro e a vida de nossos jovens, a saúde dos não-fumantes, e, minimante, o cumprimento da Lei 9294/96 que proíbe fumar em lugar coletivo, seja ele público ou privado.

 

(*) Advogado e Professor PUCRS/CESUPA