CIGARRO,
EPIDEMIA NACIONAL
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O tabagismo é um dos
maiores problemas de saúde pública da atualidade. Morrem hoje no mundo 4
milhões de pessoas por ano devido a doenças relacionadas ao tabaco; o mesmo
número de pessoas atingidas pela tuberculose. "A Aids mata menos que o
cigarro. Nos últimos anos a doença foi responsável pela morte de 20 milhões de
pessoas; mas o tabaco matou 60 milhões de pessoas", afirma José Rosemberg,
presidente do comitê Coordenador de Controle do Tabagismo no Brasil, vinculado
ao comitê Latino-Americano de Controle do Tabagismo. Membro da Câmara Técnica
de Tabagismo do Inca, presidente da Comissão de Combate ao Tabagismo da
Associação Médica Brasileira e presidente da Secretaria de Controle do
Tabagismo da Secretaria e Saúde do Estado de São Paulo, ele começou a trabalhar
nesta área em 1968, quando organizou a primeira semana antitabágica na
pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Foi a primeira vez que a
universidade teve uma ação semelhante. Desde então, Rosemberg já publicou mais
de 100 trabalhos sobre o tabagismo, cerca de 28% de toda a bibliografia do país
sobre o assunto.
O problema do fumo no mundo é gigantesco e
atinge todos os países. A nicotina é a droga que conta com a maior difusão no
mundo e provoca dependência física e
química maior que a cocaína e a heroína. É uma droga lícita que demora de 15 a
20 anos para causar malefícios. É a única que carrega cerca de 5 mil
substâncias tóxicas. Quando o fumante traga, inala pelo menos 5 mil delas.
Segundo Rosemberg, a epidemia tabágica é uma das maiores já enfrentadas pela
medicina em todos os tempos e pode ser explicada por números que são, no
mínimo, assustadores. Há no mundo hoje 1,25 bilhão de fumantes classificados.
Se cada uma dessas pessoas conviver com dois não fumantes, haverá pelo menos 2
bilhões de pessoas que sofrem a conseqüência indireta do tabaco, entre fumantes
ativos e passivos. "Isso significa que mais da metade da humanidade está
direta ou indiretamente vinculada aos perigos do tabagismo", diz
Rosemberg.
No Brasil, a epidemia do
tabaco começou a se alastrar em 1970 e de lá pra cá o consumo de tabaco no país
aumentou 158%, enquanto a população cresceu 50%. Em todo o planeta consome-se
250 mil toneladas de nicotina por dia, o equivalente a 6 trilhões e meio de
cigarros. Um dado preocupante é o deslocamento da epidemia dos países
desenvolvidos para os países em desenvolvimento, como o Brasil. Dos 4 milhões
de pessoas que morrem hoje devido às complicações causadas pelo cigarro, 3
milhões estão nos países em desenvolvimento. Enquanto no chamado primeiro mundo
o consumo caiu 2,54% ao ano, nos países em desenvolvimento subiu 3%.
Um dos motivos por que vem
acontecendo é o baixo custo do cigarro em países em como o Brasil, impulsionado
pelo contrabando, que já representa 40% das vendas. Combater o contrabando e
aumentar o preço do cigarro são medidas defendida pelo enfermeiro sanitarista
Marco Antonio de Moraes, coordenador estadual das ações de controle do programa
de tabagismo do Hospital Santa Cruz, em São Paulo, para diminuir o consumo de
tabaco.
"O Brasil conseguiu um
certo controle sobre a propaganda de cigarro, mas é preciso mais. A partir do
ano que vem serão proibidos os patrocínios de eventos esportivos e culturais
pela indústria tabageira". Segundo os dados da Organização Pan-Americana
da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), a propaganda do tabaco
ainda está muito presente em eventos esportivos. Números da Federal Trade
Comission mostram que somente nos Estados Unidos, em 1999, houve
investimento de US$ 113,6 milhões no custeio de eventos esportivos.
Mortes anunciadas
Se o consumo de tabaco
não for controlado no mundo, a Organização Mundial de Saúde estima que em 2020
o número de mortes decorrentes do fumo subirá para 10 milhões ao ano.
"Imagina-se que no Brasil estejam morrendo entre 80 a 100 mil pessoas por
ano em conseqüência do fumo", afirma Rosemberg. Um dos grandes problemas
do tabagismo são os fumantes passivos, que ficam expostos aos riscos do cigarro
mesmo tendo optado por não fumar. O cigarro é o principal poluente doméstico
que se conhece . Todo mundo, em algum momento da vida, foi exposto à fumaça do
cigarro. A Agência de Proteção Ambiental norte-americana considera poluição
tabágica ambiental fator A na classificação de cÂncer do pulmão. E já são três
mil casos de enfartes de coração hoje, nos Estados Unidos, em fumantes
passivos. A pior fumaça é que sai da ponta do cigarro, que não passou pelo
filtro nem pelo pulmão do fumante e que impregna nas cortinas, estofados e
tapetes.
Rosemberg diz que o
risco varia de acordo com a idade de cada um, o número de horas que a pessoa
passa com fumante, o número de cigarros e o tamanho do aposento em que se está.
"Um estudo na França mostra que aumentou o numero de casos de câncer de
pulmão em mulheres não fumantes com maridos fumantes. O problema é ainda mais
sério com as crianças. No Brasil, temos hoje 15 milhões de crianças fumantes
passiva. No mundo todo são 700 milhões." Quando a mulher fuma durante a
gravidez, corre maior risco de aborto, de descolamento da placenta e outras
complicações. O feto recebe menos oxigênio, o que altera sua estrutura pulmonar
e cerebral, além de aumentar o risco de morte súbita. Há maiores riscos da
criança nascer nascer com defeitos congênitos e até com QI mais baixo. "Em
famílias onde ninguém fuma, de 14 a 17% das crianças sofrem infecções
pulmonares (bronquite, pneumonia, etc.). O número de casos dobra em casas de
fumantes. Além disso, há maior risco de doenças como amigdalite, otite média e
sinusite para a criança", explica o médico.
Do outro lado da argumentação
, a indústria do tabaco vive questionando o valor dos trabalhos científicos,
mas entre os 300 melhores estudos feitos sobre poluição ambiental no mundo, 98%
provaram que a poluição tabagista é perigosa. "Verificou-se que os outros
2% tinham ligação com a indústria do tabaco", diz Rosemberg. O médico
explica que esses estudos têm o chamado "fator de confusão". Para mostrar
que os riscos são menores, eles colocam fumantes e não fumantes em uma sala bem
ampla, com as pessoas bem distantes umas das outras, por exemplo. "Como o
consumo caiu, as multinacionais se infiltraram para fazerem estudos que levam a
observações mais favoráveis ao tabaco. E existe gente que se presta a isso. Mas
já está provado que a queda no consumo de cigarro no mundo se deve à
propaganda científica que esclarece contra os riscos e as leis que proíbem que
se fume em locais de trabalho e grande aglomeração. Cerca de 100 países têm
essas leis hoje, inclusive o Brasil. Nos Estados Unidos praticamente não se
fuma mais em empresa nenhuma", informa.
Corrente Global
A Organização Mundial de Saúde, em conjunto com 192 países e 200
organizações não governamentais, mobilizou-se para criar e aprovar um texto com
ações que combatam o tabagismo no mundo. A primeira reunião ocorreu em novembro
de 2000. O programa Convenção Quadro do Controle Global do Tabaco no Mundo
promove reuniões periódicas em Genebra, além das reuniões regionais. Grande
parte das leis já aprovadas ou em discussão no Brasil, por exemplo, fazem parte
das recomendações dessa Convenção. A lei que obriga os fabricantes de cigarro a
colocarem imagem dos danos causados pelo fumo nos maços, pioneira no Brasil e
Canadá, é uma delas. "As próximas devem ser a proibição total de fumar em
locais com aglomeração, em ambientes de trabalho, de ensino, salas de reuniões
e todos os locais de lazer. O ideal é chegar ao nível da Finlândia, onde a lei
é rígida e diz que 'só é permitido fumar ao ar livre, longe das aglomerações'
" , explica Rosemberg.
A campanha de controle do
tabagismo no estado de São Paulo está sob a responsabilidade do enfermeiro
sanitarista Marco Antonio de Moraes. "O objetivo da campanha é
conscientizar a população sobre os malefícios do cigarro através de uma série
de medidas de saúde pública, econômicas, educativas e legislativas. Assim
pretendemos baixar a venda e o consumo de cigarros". O Ministério da Saúde
desenvolve desde 1985 um programa em todo o Brasil com o objetivo de diminuir a
morbi-mortalidade (doenças e mortes) devido ao tabagismo. Tais medidas visam a
capacitar profissionais em todo o Brasil para o desenvolvimento de uma série de
ações ligadas às secretarias estaduais de saúde.
"Mais de 50% dos municípios
brasileiros já estão capacitados, mas a idéia é ter uma pessoa em cada cidade
brasileira, desenvolvendo ações diretas em escolas e instituições de saúde. Uma
delas é trabalhar com profissionais de instituições de saúde. Uma delas é
trabalhar com profissionais de instituição de saúde de pequeno, médio e grande
portes (hospitais, centros de saúde, postos periféricos) e formar uma massa
crítica de profissionais que através de uma consulta sejam capazes de abordar o
fumante , entender a dependência e ser capaz de aconselhar, acompanhar e
avaliar os resultados. E também mostrar esses profissionais a incoerência de
ser um fumante", explica Marco Antônio.
Ele faz questão de
ressaltar que o programa não que agredir o fumante, mas conscientizá-lo dos
riscos e mostrar a mensagem equivocada que a indústria passa. "O tabagismo
é considerado uma doença porque a nicotina é uma droga pesada e mata. Quando
desenvolvemos programas internos, procuramos até ter fumantes no grupo".
Além dos estabelecimentos de saúde, também estão sendo treinados profissionais
de escolas. "Queremos reunir profissionais de saúde e professores que
sejam capazes de incluir o assunto tabagismo no currículo escolar para que os
jovens tenham consciência da gravidade do cigarro. Nosso objetivo é ter escolas
livres do cigarro. 90% das pessoas começam a fumar antes dos 18 anos, por isso
é tão barrar o tabagismo antes dessa idade", diz ele.
A secretaria desenvolve
programas que reúnem grupos de pessoas que desejam parar de fumar e já começam
a surgir em São Paulo associações de fumantes anônimos. Além disso, está
empenhada em buscar parcerias não governamentais, para expandir seu raio de
ação. "O que falta no Brasil é a parceria de organizações não
governamentais com o governo para termos maior sucesso. Nos Estados Unidos,
Canadá e Finlândia, a participação não governamental é fundamental para o
sucesso das ações. Otawa, no Canadá, por exemplo, tornou-se livre do cigarro
devido a ações governamentais e não governamentais. O estado da Califórnia, nos
Estados Unidos, é conhecido hoje como livre do cigarro. Mas para combater o
tabagismo eles têm uma renda infinitamente maior da que temos para o Brasil
inteiro. E claro, o apoio dessas organizações", ressalta Marco Antonio.
No Brasil, o programa governamental que está sendo desenvolvido é tão
importante, que desde 1996, a Organização Mundial da Saúde cita o Ministério da
Saúde brasileiro como centro de referência na América Latina em relação as
ações de controle do tabagismo. Marco Antonio acredita que essas medidas
consigam a longo prazo estimular as pessoas a pararem de fumar. "Uma
pesquisa da Vox Populi demonstrou que houve uma pequena queda no número de
fumantes no Brasil, embora tenha aumentado o consumo de álcool, mas ainda é
cedo para falar de um programa que tem apenas 17 anos", diz ele.
A batalha contra o
tabagismo ainda tem um longo caminho pela frente, mas para o Dr.José Rosemberg
já houve avanços. "Durante 400 anos se disse que o tabaco era um estilo de
vida. Não se acaba com isso apenas com uma lei mas, sim, com um trabalho de
formiga que se está fazendo no mundo. As leis estão mais rígidas, o tabagismo é
discutido em todos os congressos médicos, coisa que não acontecia há dez anos.
Sem dúvida, estamos melhorando, mas a luta depende do binômio legislação e
educação. Não há lei que possa ser aplicada sem um preparo educacional e não há
medida educacional que não dependa do amparo legal para ser eficiente",
conclui o especialista.