DEPOIMENTO DE QUEM ESTA DEIXANDO
DE FUMAR
26.02.2004 | Hoje, decerto, não será um dia igual aos últimos 30
que passei à toa, compensando a abstinência com vagabundagem. Meu clínico-geral
– ô, raça! – vai pensar que é piada, mas cortei, junto com o cigarro, as carnes
vermelhas, o açúcar, os refrigerantes, quase toda gordura animal, farináceos em
geral, noitadas em particular...
Só não cortei os pulsos porque nas horas de maior aflição
usava os pés para driblar a vontade de fumar. Andava três, quatro horas por dia
em busca de bons motivos para largar o vício depois que a tomografia de meus
pulmões foi considerada “um espetáculo” pelo especialista que me assiste com
antidepressivos (Zyban) e adesivos de nicotina (Niquitin) para segurar minha
onda.
Os três quilos que perdi, as ressacas que não tive e a
indescritível sensação de limpeza orgânica – até o cheiro de pum de meus filhos
voltei a sentir – também me ajudaram a resistir à tentação de uma mísera
tragadinha depois das refeições, do cafezinho, do drinque... Para mim, os
piores momentos da abstinência foram aqueles de solidão. Jamais estamos
sozinhos quando se fuma – daí, imagino, a sensação de que tudo que escrevi até
sair de férias tem co-autoria do cigarro. Eu e o Parliament talvez sejamos como
Roberto e Erasmo Carlos – não necessariamente nessa ordem.
Ainda bem que volto a fazer análise na próxima terça-feira.
Ando cheio de dúvidas de quem eu seja não fumante. Talvez eu não exista sem
cigarro! Sabia que esse tipo de crise estava reservada para minha volta ao
trabalho, mas confesso que subestimei o vício. Imaginava que, limpo há um mês,
não sofreria tanto os efeitos da dependência.
Escrevo da Quarta-Feira de Cinzas,
agora são 15h03, e os cinzeiros à minha volta continuam vazios. Faltam,
portanto, 8h57 para eu completar 30 dias sem fumar. Meus amigos alcoólatras
sabem o que é isso. Às 11h da manhã, quando religuei meu computador, achei que
não conseguiria chegar ao meio-dia sem fumar pelo menos dois cigarros para
passar do primeiro parágrafo. Acho que hoje vou vencer esta guerra, amanhã
começa tudo de novo.
Todo mundo fica um pouco mais burro quando pára de fumar, só
espero não cometer a suprema burrice de voltar a fumar por causa do trabalho. O
certo seria continuar de férias até tudo isso passar – alguma hora, espero, o
cigarro será para mim algo tão imperturbável quanto a cocaína ou a Coca-Cola.
Todo ex-fumante deveria ter direito a um ano sabático para se reencontrar!
Agora já são 17h20, matei um bule de café e uma cartela de
chicletes, a Unidos da Tijuca é vice-campeã do Carnaval carioca e eu vou
chegando ao fim do primeiro texto não-fumante do resto de minha vida. Soube na
volta das férias que Lula está tentando largar um tal de Waldomiro, e Luma, o
Eike Batista. Meu caso é mais simples: para continuar limpo, basta eu deixar o
cigarro. Torçam por mim.